fbpx

Desvendando a estratégia de Inteligência Artificial (IA) da China

Um olhar sobre a estratégia chinesa de AI (Artificial Intelligence), em português IA (Inteligência Artificial). Uma política de Estado declarada aos quatro cantos do globo pelo governo Chinês e que poderá gerar um grande impacto no modo de vida que conhecemos.

Quando escrevi o artigo “O que existe por trás do reconhecimento facial Chines?“, impulsionado pela notícia de que deputados federais integravam um grupo de parlamentares brasileiros que viajaram (15/01/2019) para China, a convite da embaixada chinesa no Brasil para conhecer as tecnologias inovadoras do país e em especial o reconhecimento facial, resolvi aprofundar a pesquisa. Sendo eu uma pessoa ligada diretamente neste setor não pude fechar meus olhos para o fato. Após mais de seis meses de leituras e estudos, o resultado desta pesquisa esta abaixo.

Se considerarmos o mundo como um jogo de poder, por liderança mundial absoluta, não há dúvida de que a Inteligência Artificial (IA), de forma similar à maneira como as bombas atômicas e os satélites foram nas décadas de 1940 e 1950, se tornará o novo foco da competição. Por outro lado, devemos buscar fazer com que IA seja colaborativa e não a força motriz de desunião planetária.

Importante entendermos o que os países estão fazendo neste setor, para que um dia aqui no Brasil, no mínimo, estejamos em condições de pleitear assentos nas discussões que poderão moldar uma sociedade do futuro.

Todas as referências estão disponibilizadas em mais de 80 links diretamente aplicados no texto abaixo.

Introdução

A partir de pesquisas e estudos em inovação tecnológica, discussões empresariais, analisando a indústria, políticas, relatórios e programas de IA da China, cheguei a uma série de julgamentos importantes sobre as visões, estratégias e perspectivas da liderança chinesa. Obviamente, a liderança da China nesta área também se deve a uma grande população com diversidade de pontos de vista e investimentos grandiosos em P&D, e qualquer esforço para generalizar é presunçoso e simplificar demais. No entanto, a distância é grande entre as opiniões predominantes no Brasil, sobre os esforços de IA da China, e o que eu acredito que são os fatos. Espero que, ao declarar minhas visões, avancemos nesta questão e que seja benéfica para formulação de políticas estratégicas em nossa amada Nação.

A importância da IA para os chineses
1. A liderança da China. Incluindo o presidente Xi Jinping, acredita que estar na vanguarda da tecnologia de IA é fundamental para o futuro da competição global de forças econômicas e militares.

Em julho de 2017, o Conselho de Estado da China emitiu o Plano de Desenvolvimento de Inteligência Artificial da Nova Geração (AIDP) (Link 1). Este documento, juntamente com o Made in China 2025 (Link 2) lançado em maio de 2015, formam o núcleo da estratégia de IA da China. Ambos os documentos, assim como a questão da IA ​​em geral, receberam atenção significativa e sustentada dos mais altos níveis de liderança da China, incluindo Xi Jinping. O total de gastos do governo chinês em IA para implementar esses planos não é divulgado publicamente, mas é claramente na casa das dezenas de bilhões de dólares. Pelo menos dois governos regionais chineses se comprometeram a investir 100 bilhões de yuans (~ US $ 14,7 bilhões) (Link 3) (Link 4). Os parágrafos inciais do AIDP (Link 5) exemplificam os principais pontos de vista chineses sobre a IA:

“A IA se tornou um novo foco de competição internacional. A IA é uma tecnologia estratégica que liderará no futuro; os principais países desenvolvidos do mundo estão avançando no desenvolvimento da IA ​​como uma estratégia importante para aumentar a competitividade nacional e proteger a segurança nacional.”

A citação acima (Link 6 – O AIDP foi lançado oficialmente pelo Conselho de Estado chinês, mas os comitês consultivos e os autores incluíam representação dos setores de segurança nacional, diplomática, acadêmica e privada da China) também reflete o quanto o governo Chinês está prestando muita atenção às indústrias e políticas de IA de outros países, principalmente dos Estados Unidos. Organizações governamentais chinesas rotineiramente traduzem, disseminam e analisam relatórios do governo dos EUA e de think tanks sobre IA.

Os relatórios de inteligência artificial do governo chinês citam frequentemente as publicações do think tank de segurança nacional dos EUA (Link 7). A comunidade de formuladores de políticas dos Estados Unidos deve priorizar a eficácia, a tradução, a análise e a divulgação de publicações chinesas sobre IA para os insights que eles fornecem sobre o pensamento chinês.

2. Liderança da China: Incluindo Xi Jinping, a China acredita que deve buscar a liderança global em tecnologia de IA e reduzir sua dependência vulnerável das importações de tecnologia internacional.

Em outubro de 2018, Xi Jinping liderou uma sessão de estudos do Politburo (comitê central do partido comunista da antiga U.R.S.S.) sobre IA. Essas sessões são reservadas para questões políticas de alta prioridade, em que os líderes precisam do apoio de especialistas externos. Os comentários divulgados publicamente por Xi durante e após a sessão de estudo reiteraram as principais conclusões do AIDP e do Made in China 2025 , segundo as quais a China deveria “alcançar níveis líderes mundiais” em tecnologia de IA e reduzir sua vulnerável dependência “externa [estrangeira] para tecnologias-chave e equipamentos avançados.”

Em seu discurso durante a sessão de estudo, Xi disse que a China deve “garantir que o país avance na linha de frente no que se refere à pesquisa teórica nesta importante área da IA ​​e ocupe um terreno elevado nas principais tecnologias críticas” (Link 8). Xi disse ainda que a China deve “prestar muita atenção à estrutura de nossas deficiências, garantir que as tecnologias críticas e essenciais da IA ​​sejam compreendidas com firmeza em nossas próprias mãos.”

O discurso de Xi demonstra que a liderança da China continua a de acordo com o AIDP e Made in China 2025 duas conclusões principais de que a China deve buscar a liderança mundial e a autoconfiança na tecnologia de IA. A dependência do setor de inteligência artificial chinesa em tecnologia estrangeira é discutida mais adiante no item nove.

Visão dos chineses sobre as implicações na segurança internacional com AI
3. Recentemente, autoridades chinesas e relatórios do governo começaram a expressar preocupação em vários fóruns diplomáticos sobre a dinâmica da corrida armamentista associada à IA e a necessidade de cooperação internacional em novas normas e potencial controle de armas.

Em um discurso durante a maior conferência de relações internacionais da China em 15 de julho de 2018, a senhora Fu Ying (Link 9), vice-presidente do Comitê de Relações Exteriores do Congresso Nacional do Povo, disse que tecnólogos e formuladores de políticas chineses concordam com a “ameaça do novo [ IA] para a humanidade”. Afirmou ainda que “Acreditamos que devemos cooperar para prevenir a ameaça da IA ​​”.

A apresentação de Fu Ying, mostrando IA como uma ameaça compartilhada à segurança internacional foi repetida por muitos outros diplomatas chineses e estudiosos. Por exemplo, um oficial afirmou neste encontro que estava preocupado com o fato de a IA “diminuir o limiar da ação militar”, porque os países podem ficar mais dispostos para atacar uns aos outros com os sistemas militares equipados com AI devido à falta de risco de mortes de inocentes. As autoridades chinesas também expressaram preocupação com o fato de que o aumento do uso de sistemas de IA tornaria as percepções errôneas e a escalada não intencional de conflitos mais provável devido à falta de normas bem definidas sobre o uso de tais sistemas. Além disso, as autoridades chinesas demonstraram conhecimento substancial dos riscos de segurança cibernética associados aos sistemas de IA, bem como suas implicações para a segurança chinesa e internacional.

Fu Ying disse que a China estava interessada em desempenhar um papel de liderança na criação de normas para mitigar esses riscos. Na mesa redonda privada do Fórum da Paz Mundial sobre IA, um estudioso sênior de um think tank do PLA expressou em particular seu apoio a “mecanismos semelhantes ao controle de armas” para sistemas de IA em segurança cibernética e robótica militar. No entanto, ele também disse que o controle de armas relacionadas à IA seria singularmente difícil, já que “a IA é de baixo custo e pode ser disseminada facilmente e não pode ser monitorada facilmente”.

Notavelmente, o recente “Artificial Intelligence Security White Paper”, publicado em setembro de 2018 pela Academia Chinesa de Tecnologia da Informação e Comunicações (CAICT), um influente think tank do governo chinês, pede ao governo chinês que “evite corridas de armas de Inteligência Artificial entre países” (Link 10). O AIDP não trata das corridas armamentista, mas afirma que a China “aprofundará a cooperação internacional em leis e regulamentos de IA, regras internacionais e assim por diante, e enfrentará conjuntamente os desafios globais”.

Tais preocupações se estendem ao setor privado da China. Jack Ma, presidente do Alibaba, disse explicitamente em um discurso no Fórum Econômico Mundial de Davos de 2019 que estava preocupado com o fato de que a concorrência global pela IA poderia levar à guerra. (Link 11)

4. Apesar de expressar preocupação com as corridas armamentista da IA, a maior parte da liderança da China vê o aumento do uso militar da IA ​​como inevitável e a está buscando seu avanço de forma contundente. A China já exporta plataformas autônomas armadas e IA de vigilância. O reconhecimento facial Chinês, já implantado em diversos países, é somente a ponta do iceberg.

No Fórum de Xiangshan, em Pequim, em 24 de outubro de 2018, o major-general Ding Xiangrong, vice-diretor do Gabinete Geral da Comissão Militar Central da China, fez um discurso importante no qual definiu os objetivos militares da China para “diminuir a distância entre os militares chineses e o mundo” aproveitando a “revolução militar em curso. . . centrados em tecnologia da informação e tecnologia inteligente”. Os líderes militares chineses se referem cada vez mais à tecnologia militar inteligente como sua expectativa confiante para a futura base da guerra. O uso do termo “inteligente” significa um novo estágio da tecnologia militar além do estágio atual, baseado na tecnologia da informação (Link 12). O documento de estratégia da AIDP da China afirma que a China “promoverá todos os tipos de tecnologia de IA para se incorporar rapidamente no campo da inovação em defesa nacional”.

No dia seguinte, no fórum de Xiangshan, Zeng Yi, executivo sênior da terceira maior empresa de defesa da China (NORINCO é a terceira maior empresa de defesa da China e a nona maior do mundo), fez um discurso no qual descreveu as expectativas de sua empresa (e da China) para a futura implementação de armas de IA: “Nos futuros campos de batalha, Zeng previu que até 2025 armas autônomas letais seriam comuns e disse que sua empresa acredita que o crescente uso militar da IA ​​é “inevitável […] Temos certeza sobre a direção e que este é o futuro.”

Os comentários de Zeng são consistentes com os programas de desenvolvimento de veículos militares autônomos chineses em andamento e com a atual abordagem da China para exportação de sistemas militares não tripulados. O governo da China já está exportando muitos de seus drones aéreos militares mais avançados para países do Oriente Médio, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

O governo da China declarou que também exportará seus drones furtivos de próxima geração quando estiverem disponíveis (Link 13). Embora muitos drones da geração atual sejam operados principalmente remotamente, as autoridades chinesas geralmente esperam que os drones e a robótica militar apresentem IA e capacidades autônomas cada vez mais extensas no futuro. Os fabricantes de armas chineses já estão vendendo drones armados com quantidades significativas de autonomia em combate.

A Ziyan, fabricante chinesa de drones militares, vendeu seu modelo Blowfish A2 para os Emirados Árabes Unidos e, em novembro de 2019, supostamente estava em negociações com a Arábia Saudita e o Paquistão para vendas do Blowfish A2 (Link 14).

O site de Ziyan afirma que o Blowfish A2 de 38 kg “realiza autonomamente missões de combate mais complexas, incluindo detecção de ponto fixo, reconhecimento de alcance fixo e ataques de precisão direcionados” (Link 15). Dependendo das preferências do cliente, Ziyan oferece para equipar o Blowfish A2 com mísseis ou metralhadoras.

Além de usar a IA para robótica militar autônoma, a China também está interessada nos recursos da IA ​​para a tomada de decisões de comandos militares. Zeng Yi expressou algumas fortes opiniões ​​sobre esse assunto, afirmando que hoje “o equipamento mecanizado é exatamente como a mão do corpo humano. Nas futuras guerras inteligentes, os sistemas de inteligência artificial serão como o cérebro do corpo humano”. Zeng também disse que “a supremacia da inteligência será o núcleo da guerra futura” e que “a inteligência artificial pode mudar completamente a atual estrutura de comando, que é dominada por humanos” para um novo modelo dominado por um “conjunto de sistemas de IA”. Zeng não elaborou suas alegações, mas elas são consistentes com um pensamento mais amplo nos círculos militares chineses, após a importante vitória de AlphaGo em março de 2016 sobre Lee Sedol (Link 16) (Link 17).

Atualmente, a China está fazendo uso extensivo de IA em aplicativos de vigilância doméstica. O general Wang Ning, da Força Policial Armada do Povo Chinês, recentemente se gabou do sucesso da China no uso da IA ​​na província de Xinjiang:

“Em Xinjiang, usamos IA de big data para combater terroristas. Interceptamos 1200 organizações terroristas quando ainda planejavam um ataque. Usamos a tecnologia para identificar e localizar atividades terroristas, incluindo o sistema de cidades inteligentes. Temos um sistema de reconhecimento facial e, para todos os terroristas, existe um banco de dados.” – General Wang Ning, “Terrorismo Global: ameaças e contramedidas” (8º Pequim Xiangshan Forum, Beijing, 25 de outubro, 2018)

A província de Xinjiang é o lar de milhões de pessoas, de minoria étnica Uighur, que foi sujeita a perseguições implacáveis e agora auxiliadas pela tecnologia de vigilância da IA. (Link 18)

Leia: Governo da China reforça vigilância em Xinjiang no fim do Ramadã; região tem maioria muçulmana.
Site G1 – Por France Presse – 05/06/2019

Governo chinês enviou drones à região de Xinjiang, onde muçulmanos são maioria — Foto: Greg Baker/AFP

A corporação SenseTime da China, campeã nacional em IA na perspectiva de programação computacional e metodologia neural de programação, é uma importante fornecedora de tecnologia de vigilância para o governo da China, inclusive para Xinjiang. Os produtos de segurança e vigilância do SenseTime geralmente são descritos usando o eufemismo da “cidade inteligente”. No entanto, o SenseTime também possui muitos produtos não relacionados à segurança, como o sistemas de “vídeo analise” para máquina e equipamentos com visão por computador, como por exemplo relacionado a veículos autônomos.

O SenseTime é um grande exportador de tecnologia de vigilância nos mercados governamentais e comerciais na América Latina, África e Ásia. O governo e a liderança da China estão entusiasmados com o uso da IA ​​para vigilância. Membros do partido dizem que se tornará “impossível cometer um crime sem ser pego”, um sentimento que ecoa os materiais de marketing lançados pelas empresas chinesas de vigilância de IA.

O comportamento da China em desenvolver, utilizar e exportar agressivamente armas robóticas e tecnologia de vigilância cada vez mais autônoma contraria os objetivos declarados pela própria China em evitar uma corrida armamentista por IA. No entanto, isso por si só não significa necessariamente que as autoridades chinesas estejam sendo sinceras em suas declarações de preocupação com essas corridas. Criticar e lamentar a dinâmica da corrida armamentista enquanto participa agressivamente dela, é uma estratégia comum na história das relações internacionais. A indicação comportamental mais forte de que a China pode não estar sendo sincera em suas declarações vem do documento de posição da ONU de abril de 2018 (Link 19), em que o governo da China apoiou uma proibição mundial de “armas autônomas letais”, mas usou uma definição tão bizarramente estreita de armas autônomas letais que tal proibição pareceria desnecessária e inútil. Essa “jogada” retórica permitiu à China colher atenção positiva da mídia por seu apoio às restrições globais, evitando a hipocrisia do desenvolvimento chinês de IA e autonomia militar mais avançadas (Link 20). De maneira mais ampla, parece haver menos preocupação popular entre os pesquisadores chineses de IA do que seus pares no Ocidente, embora as evidências sobre este ponto sejam limitadas. (Link 21)

5. O Ministério da Defesa Nacional da China estabeleceu duas grandes novas organizações de pesquisa focadas em inteligência artificial e sistemas não tripulados sob a Universidade Nacional de Tecnologia de Defesa (NUDT).

O Instituto Nacional de Inovação de Tecnologia de Defesa (NIIDT, uma subsidiária da NUDT), estabeleceu e está crescendo rapidamente duas organizações de pesquisa com sede em Pequim, focadas no uso militar da IA ​​e tecnologia relacionada. Estes são o Centro de Pesquisa de Sistemas Não Tripulados (USRC), liderado por Yan Ye, e o Centro de Pesquisa de Inteligência Artificial (AIRC), liderado por Dai Huadong (Dr. Dai é professor da Ciência da Computação no NUDT College of Computer Science). Cada organização foi criada no início de 2018 e agora possui uma equipe de pesquisa de mais de 100 (mais de 200 no total), o que a torna uma das maiores e mais rápidas organizações governamentais de pesquisa em IA do mundo. No entanto, existem grandes organizações de pesquisa de IA do setor privado na China e nos Estados Unidos. O SenseTime, por exemplo, possui aproximadamente 600 funcionários de pesquisa em período integral. A DeepMind uma subsidiária do Google focada em pesquisa em IA possui cerca de 700 funcionários totais e gastos anuais de mais de US $ 400 milhões (Link 22). Os salários dos PhDs chineses em IA na China geralmente são muito mais baixos do que os salários dos PhDs ocidentais em IA, ou chinês com formação ocidental, o que dificulta a estimativa do orçamento do AIRC com base na equipe. A equipe da AIRC está envolvida em pesquisas básicas sobre a tecnologia de IA de uso duplo, incluindo a aplicação de aprendizado de máquina em robótica, redes de enxames, comunicações sem fio e segurança cibernética. O AIRC provavelmente também faz trabalhos classificados para a Comunidade Militar e de Inteligência da China.

6. O governo da China vê a IA como uma oportunidade militar promissora de “avançar o desenvolvimento”, o que significa que ela oferece vantagens militares sobre até os EUA e será mais fácil de implementar na China do que nos Estados Unidos. O Brasil esta muito longe disso.

O termo “leapfrog development” descreve uma tecnologia para a qual os países retardatários podem pular um estágio de desenvolvimento, ou um para o qual esta atrasado na atual geração de tecnologia, o método oferece uma vantagem na adoção da próxima geração. Um exemplo comumente citado é a adoção rápida e generalizada da tecnologia de telefonia celular e o mesmo esta acontecendo hoje com o reconhecimento facial para área de segurança em países que não dominam a tecnologia de IA ou vídeo análise.

Kai-Fu Lee, um dos principais investidores no setor de IA da China, argumenta que a ausência de muitas tecnologias para economia desenvolvida, como verificações facial para operações de crédito, levou a uma enxurrada de empresários chineses fazendo uso inovador das capacidades de IA para preencher essas lacunas. (Kai-Fu Lee, Super investidor de IA: China, Vale do Silício e a Nova Ordem Mundial – Boston: Houghton Mifflin Harcourt Trade & Reference Publishers, 2018).

Os cartões de crédito plásticos são quase inexistentes na China, mas os pagamentos por telefone celular garantidos pelo reconhecimento facial são onipresentes.

Veja a série EXPRESSO FUTURO do Programa Fantástico da rede Globo, que teve início em 1 de setembro de 2019, sobre os avanços tecnológicos da China, com o especialista em tecnologia Ronaldo Lemos que viajou até Hangzhou.

Este tipo de programa busca apresentar a tecnologia e torna-la mais aceitável para a população. Preparando os brasileiros para aceitação da tecnologia chinesa na próxima década. Com que interesse?

Assista:
Expresso Futuro’: veja a revolução do pagamento digital na China

A ênfase da China na IA como um facilitador de tecnologia de ponta se estende aos aplicativos de segurança nacional. O Plano Nacional de Desenvolvimento de IA da China em 2017 identifica a IA como uma “oportunidade histórica” para as tecnologias de salto em segurança nacional. O executivo chinês da Defesa, Zeng Yi, repetiu a afirmação, dizendo que a IA “trará um avanço maior” em tecnologia militar e representa uma oportunidade estratégica para a China.

Se a China estiver certa de que a IA apresenta uma oportunidade de salto, isso significaria que a China está melhor posicionada para adotar a IA militar do que os Estados Unidos ou qualquer outra nação no mundo. Nessa teoria, as vantagens atuais dos Estados Unidos em aeronaves furtivas, porta-aviões e munições de precisão seriam mais tão relevantes a longo prazo, porque os interesses comerciais e políticos arraigados que apoiam o domínio militar hoje dificultam os Estados Unidos na transição para uma Inteligência Artificial militar. (Link 23)

Como um estudioso do think tank chinês afirmou, a China acredita que provavelmente os Estados Unidos gastem demais para manter e atualizar os sistemas existentes e que invistam em novos sistemas disruptivos que tornem obsoletas as vantagem existentes hoje nos Estados Unidos. As forças armadas da China também mantem grandes investimentos para proteger os sistemas legados, mas em uma proporção muito menor. Nos EUA os gastos militares triplicaram no período de 2007 a 2017, (Link 24) a modernização é uma prioridade e há um entendimento geral de que muitas de suas plataformas e abordagens atuais são obsoletas e devem ser substituídas independentemente.

Apenas um dos muitos exemplos da estratégia de salto de inteligência artificial da China é o investimento prioritário (Link 25) e a espionagem tecnológica (Link 26). A China acredita que esses sistemas serão um meio barato e eficaz de ameaçar a forma militar dos EUA e um caminho alternativo para projetar a potência chinesa. Em geral, a China vê P&D militar de IA como um caminho mais barato e fácil para ameaçar as fontes de poder militar dos Estados Unidos do que o desenvolvimento de equivalentes chineses dos sistemas americanos.

Autonomous robotic submarines are expected to be deployed by China in the early 2020s. Graphic: Henry Wong

Opiniões chinesas sobre os pontos fortes do ecossistema de inteligência artificial da China

7. O governo e a indústria da China acreditam que, em grande parte, fecharam a brecha com os Estados Unidos em pesquisa e desenvolvimento de IA e produtos comerciais de IA. A China agora vê a IA como “uma corrida de dois gigantes”, entre ela e os Estados Unidos.

A National AI Strategy da China de julho de 2017 estabeleceu uma meta para 2020: “a competitividade da indústria de IA da China deverá estar no primeiro escalão internacional”. Hoje a liderança da China já comprova ter atingido esse objetivo em meados de 2018. No Fórum Mundial da Paz, Xue Lan, da Universidade de Tsinghua, fez um resumo do principal relatório da Universidade de Tsinghua sobre a situação do setor de IA na China. (Link 27) Este estudo constatou que “a China conquistou uma posição de liderança no escalão mais alto da IA ​​em desenvolvimento de tecnologia e aplicações de mercado e está em uma corrida de ‘dois gigantes’ com os EUA”. Ele também conclui que a China é:

  • Nº 1 no total de artigos de pesquisa sobre IA e artigos altamente citados em todo o mundo;
  • Nº 1 em patentes de IA;
  • Nº 1 em investimento em capital de risco da IA;
  • Nº 2 no número de empresas de IA;
  • Nº 2 no maior conjunto de talentos de IA.

A avaliação da China de estar no primeiro escalão está correta, embora existam advertências importantes que serão discutidas mais abaixo. Não apenas a China está avançando no estado da arte em pesquisa de IA, mas suas empresas estão desenvolvendo com sucesso produtos e serviços genuinamente inovadores e competitivos no mercado em torno de aplicativos de IA. O SenseTime, por exemplo, é indiscutivelmente um dos líderes mundiais em programação para IA e alega ter alcançado um crescimento de receita anual de 400% por três anos consecutivos. DJI é outro exemplo, ela lidera o mundo de drones para mercados consumidores, com 74% de participação neste mercado. (Link 28) A DJI incorporou de forma inovadora a tecnologia de aprendizado de máquina (programação neural) em seus produtos mais recentes.

Em muitos casos, os produtos e tecnologias subjacentes entre AI comercial e AI militar ou de segurança são idênticos ou quase. A DJI foi selecionada recentemente como o único fornecedor de drones do Departamento de Polícia de Nova York, que usará os modelos de drones de consumo da DJI. Da mesma forma, os sistemas de reconhecimento facial do consumidor do SenseTime compartilham infraestrutura e tecnologia com seus sistemas de segurança, usados ​​pelas organizações chinesas de aplicação da lei e de inteligência.

8. A forte posição atual da China em P&D em IA e aplicações comerciais foi possibilitada pelo acesso a mercados internacionais, tecnologia e colaboração em pesquisa.

O sucesso da China foi possibilitado pelo acesso a pesquisas e mercados globais de tecnologia. Muitas conquistas aparentemente “chinesas” da IA ​​são realmente conquistas de equipes e empresas multinacionais de pesquisa, e essa colaboração internacional tem sido fundamental para o progresso da pesquisa na China. De acordo com o estudo da Universidade Tsinghua sobre o ecossistema de inteligência artificial da China, “Mais da metade dos artigos de inteligência artificial da China eram publicações conjuntas internacionais”, o que significa que os pesquisadores chineses de inteligência artificial, cuja a maioria se formava no exterior, eram coautores de indivíduos não chineses. Mesmo os sucessos puramente chineses geralmente se baseiam em tecnologias de código aberto desenvolvidas com mais frequência por grupos internacionais.

Em parte como resultado disso, as principais empresas de tecnologia chinesas têm dependências significativas dos Estados Unidos. Por exemplo, a DJI, a principal fabricante mundial de drones com sede em Shenzhen, é verticalmente integrada em quase todo o projeto, fabricação e marketing. No entanto, todo o desenvolvimento de software de vôo por drones da DJI é realizado no escritório americano da DJI em Palo Alto, que emprega predominantemente cidadãos dos EUA como funcionários. Além disso, quase 35% dos componentes dos seus drones são dos Estados Unidos, principalmente de semicondutores.

Visão chinesa sobre as fraquezas do ecossistema de inteligência artificial da China
9. Apesar da força da China em pesquisa e desenvolvimento de IA e aplicações comerciais, as lideranças da China percebem grandes fraquezas em relação aos Estados Unidos em termos de talento, padrões técnicos, plataformas de software e semicondutores.

Embora a maioria das lideranças da China concorde que a China é um dos dois “gigantes” na IA, existe um entendimento igualmente amplo de que a China não é forte em todas as áreas. O “White Paper sobre padronização da inteligência artificial” de janeiro de 2018 da China aponta que o ecossistema de IA da China fica atrasado em várias áreas principais:

“Embora a China tenha uma boa base no campo da IA, mesmo que as principais tecnologias, como reconhecimento de fala, reconhecimento facial, vídeo análise e processamento de informações no idioma chinês, tenham alcançado avanços significativos e possuam enormes ambientes de mercado para aplicativos, o nível geral de desenvolvimento ainda está atrasado, em relação aos países desenvolvidos.” (Link 29).

Da mesma forma, o relatório de desenvolvimento de IA da Universidade de Tsinghua, na China, conclui:

“Os pontos fortes da China são mostrados principalmente em aplicativos de IA mas ainda é fraco diante das principais tecnologias da IA, como desenvolvimento de hardware e algoritmo (software), o desenvolvimento de IA da China carece de talento de primeira linha e tem uma lacuna significativa com os países desenvolvidos, especialmente os EUA.”

Vale a pena detalhar um pouco mais as quatro principais fraquezas comparativas no ecossistema de inteligência artificial da China, citados por eles: talento intelectual, padrões técnicos, plataformas de software e semicondutores.

Fraqueza: Talento Intelectual (Material Humano)

Talvez a verdadeira “corrida armamentista” na inteligência artificial (IA) não seja uma competição militar, mas a batalha pelo talento. Como a grande maioria dos principais especialistas em IA do mundo permanece nos EUA, a China está começando de uma posição de clara desvantagem nessa luta. O Plano de Desenvolvimento de IA da Nova Geração (Link 30), lançado em julho de 2017, reconheceu que “o talento de ponta para a IA está longe de atender à demanda”. Esse programa inicial pede que a China “acelerasse o treinamento e a coleta de talentos de IA de ponta”, reconhecidos como um objetivo “da maior importância”. De fato, os líderes chineses estão determinados a recuperar o atraso alavancando uma variedade de planos de talentos e novas iniciativas educacionais.

O relatório de IA da Universidade de Tsinghua na China fez um estudo da distribuição global de talentos da IA, concluindo que até o final de 2017, o conjunto internacional de talentos da IA ​​era composto por 204.575 indivíduos, com os Estados Unidos com 28.536 e a China em segundo lugar com 18.232. No entanto, a China ocupa a oitava posição no mundo em termos de talento de IA, com apenas 977 indivíduos em comparação com os 5.518 dos Estados Unidos. Embora reconheça a disparidade, o investidor Kai-Fu Lee argumenta que essa não é uma barreira importante porque “a atual era da implementação [comercialização de aplicativos de IA] parece bem adequada aos pontos fortes da China em pesquisa, com grandes quantidades de pessoas qualificadas nesta área específica, embora não sejam necessariamente os melhores dos melhores pesquisadores e profissionais de IA. ” (Link 31) Alguns pesquisadores das principais instituições de pesquisa ocidentais da IA ​​me disseram que concordam com essa conclusão, observando que as descobertas da IA ​​pelas principais instituições são rapidamente replicadas por outras instituições em todo o mundo.

Talvez a verdadeira “corrida armamentista” na inteligência artificial (IA) não seja uma competição militar, mas a batalha pelo talento. 

Kai-Fu Lee é influente na indústria de tecnologia da China, mas nem todos concordam com sua teoria. Muitos dizem que a escassez de “mega talentos” na China será uma desvantagem somente no desenvolvimento futuro do setor de IA da China, e o governo da China está tomando medidas agressivas para melhorar a quantidade e a qualidade de talentos de IA da China. (Link 32) Em abril de 2018, o Ministério da Educação da China (MOE) lançou seu Plano de Ação para Inovação em Faculdades e Universidades . Entre outros elementos, o plano:

  • Criará “50 cursos de alta complexidade em universidades com graduação e pós-graduação” relacionados a aplicativos de IA para setores específicos;
  • Criará “50 cursos abertos online de alta qualidade de nível nacional”;
  • Estabelecerá “50 faculdades de inteligência artificial, instituições de pesquisa ou centros de pesquisa interdisciplinares”. (Link 33)

Em uma iniciativa separada, o MOE também planeja lançar um novo programa de treinamento de talentos em IA de cinco anos para treinar mais 500 instrutores de IA e mais 5.000 estudantes de ponta nas principais universidades chinesas. (Link 34).

Fraqueza: Padrões Técnicos (Parentes Tecnológicas)

A determinação e adoção comum de padrões técnicos internacionais é um fator essencial para a interoperabilidade tecnológica e o crescimento do mercado. A adoção comum do padrão Wi-Fi, por exemplo, é o que permitiu que uma ampla diversidade de modems, roteadores, telefones celulares e computadores se conectassem efetivamente entre si através de redes Wi-Fi. As empresas que criam propriedade intelectual relacionada a esses padrões geralmente recebem recompensas significativas, especialmente quando suas patentes, como o projeto de um chip semicondutor específico, são declaradas essenciais para a operação eficaz de qualquer dispositivo usando o padrão (Link 35). Por exemplo, a propriedade intelectual da empresa norte americana Qualcomm foi fundamental para o desenvolvimento do padrão celular CDMA (Code-Division Multiple Access). É essencialmente impossível para um dispositivo acessar redes celulares CDMA, a menos que ele use patentes de semicondutores da Qualcomm, daí o motivo de serem um exemplo das chamadas “patentes essenciais padrão” (SEPs). Historicamente, as empresas e organizações governamentais chinesas produziram muito poucos SEPs, mas a China fez um rápido progresso nessa frente. As empresas chinesas Huawei, ZTE e a Academia de Tecnologia de Telecomunicações da China produziram centenas de SEPs relacionados aos padrões celulares de quinta geração (5G). (Link 36)

Os padrões técnicos de IA, ainda não definitivos, são muito menos maduros do que os das redes celulares, mas a estratégia do governo da China para alcançar a liderança nos padrões técnicos de IA foi construída com sua experiência nas redes celulares. O governo da China e as empresas chinesas querem garantir que suas propriedades intelectuais sejam “patentes essenciais padrão” para IA.

A experiência ruim que a China obteve com a restrição das exportações para os EUA dos celulares ZTE, o governo Chinês considera estratégico obter as “patentes essenciais padrão” para o crescimento econômico e a segurança nacional.

Fraqueza: Plataformas de Software

Os desenvolvedores de sistemas de IA raramente começam do zero. Mais frequentemente, eles utilizam programas pré-escritos desenvolvidos por outros e compartilhados em bibliotecas de códigos. Isso permite que os desenvolvedores se concentrem nas especificidades exclusivas de seus requisitos de uso de aplicativos, em vez de resolver problemas genéricos enfrentados por todos os desenvolvedores de IA. Algumas organizações compartilharam bibliotecas de códigos de aprendizado de máquina com outras ferramentas de desenvolvimento de software de IA em estruturas maduras de software de aprendizado de máquina, muitas das quais de código aberto. As estruturas populares de aprendizado de máquina incluem, entre outras, TensorFlow (Google), Spark (Apache), CNTK (Microsoft) e PyTorch (Facebook).

Notavelmente, nenhuma das estruturas de software de aprendizado de máquina mais populares foi desenvolvida na China. A importância da liderança em estruturas de software é debatida mesmo entre as principais empresas de tecnologia da América do Norte. As empresas que priorizam o desenvolvimento da estrutura afirmam que oferece oportunidades para atrair os melhores talentos, influenciar os padrões técnicos e orientar o ecossistema geral em direção ao aumento do uso de seus produtos e serviços. A ausência de empresas chinesas de IA entre os principais desenvolvedores de estruturas de IA e comunidades de software de IA de código aberto foi identificada como uma grande fraqueza do ecossistema de IA da China.

Além disso, a China lamenta o fato de que atualmente (Link 37) a empresa SenseTime dedicou grandes investimentos na sua própria estrutura de aprendizado de máquina, o Parrots, que se imaginava ser superior para aplicativos de IA. Até agora, a empresa parece NÃO ter tido sucesso na divulgação e engajamento na sua plataforma. Nem mesmo os cientistas chineses, fora da SenseTime, sequer ouviram falar do Parrots, mesmo que tenha sido apresentado para a comunidade científica há mais de dois anos.

Fraqueza: Semicondutores

A maioria dos produtos eletrônicos de consumo do mundo ostenta uma etiqueta “Made in China”. Pouco mais de 65% dos computadores pessoais, notebooks e tablets do mundo, bem como quase 85% dos celulares do mundo, supostamente são fabricados na China (Link 38). No entanto, muitos desses produtos são montados com chips semicondutores de projetos de alto valor intelectual dos Estados Unidos, fabricados em Taiwan ou na Coréia, e executando softwares desenvolvidos por empresas americanas como Google, Microsoft e Apple. O iPhone, por exemplo, ostenta o rótulo “Fabricado na China”, mas apenas a produção de componentes e mercadorias de baixo valor intelectual ocorre na China. Um estudo constatou que as contribuições chinesas representam menos de 2% do custo total do iPhone, embora 100% do custo do dispositivo seja contabilizado no déficit comercial dos Estados Unidos com a China. (Link 39)

Mesmo no mercado de drones de consumo, onde a principal empresa chinesa (DJI) desfruta de 74% de participação no mercado global, 35% da lista de componentes em cada drone são na verdade projetos intelectuais Norte Americanos, principalmente semicondutores.

A China traz em larga escala, habilidades e infraestruturas extraordinárias para a fabricação de eletrônicos, responsável por seu papel central na cadeia global de equipamentos e suprimentos eletrônicos. No entanto, estudos recentes sugerem que esta vantagem fabril chinesa pode ser substituída ou ultrapassada por outro países, ou seja, um cenário global diferente da década anterior. Diante do aumento dos salários chineses e das tarifas dos EUA, muitos fabricantes internacionais de eletrônicos, como Samsung, (Link 40) Apple e Foxconn, (Link 41) estão realocando cada vez mais suas operações chinesas para países de menor custo, como Vietnã e Índia. A participação de 90% da China na fabricação global de telefones celulares em 2016 diminuiu para 85% em 2017. Em outras palavras, as industrias de eletrônica estão seguindo outros exemplos industriais que se mudam rapidamente, como os têxteis (Link 42). A China está tentando impedir esses movimentos, aumentando massivamente o uso de robótica e automação dos processos de fabricação, (Link 43) com perspectivas ainda não mensuráveis.

A fabricante chinesa de equipamentos Midea e a empresa alemã de robótica Kuka, que a Midea comprou em 2016, têm três joint ventures em uma propriedade industrial em Foshan, província de Guangdong. Foto: AFP

Por outro lado, produtos e serviços norte-americanos são às vezes insubstituíveis, como quando a fabricante chinesa de eletrônicos ZTE enfrentou uma rápida mudança da lucratividade para a falência iminente, após as restrições de exportação dos EUA aos componentes essenciais, como os semicondutores (Link 44).

Por que o setor de tecnologia da China não deve enfrentar estagnação no estilo soviético

Assim como a União Soviética durante a Guerra Fria, a China hoje está envolvida em uma extensa campanha para coletar informações tecnológicas e científicas do resto do mundo, usando meios legais e ilegais. Ao contrário da União Soviética, os esforços da China priorizam o uso dessas informações intelectuais para construir indústrias competitivas nos mercados globais e instituições de pesquisa que lideram o mundo em campos estratégicos. Por exemplo, a União Soviética deu prioridade esmagadora à aplicação militar deste conhecimento, com o objetivo de fabricar semicondutores para industria militar interna. Inicialmente este semicondutores eram importados ilegalmente nos anos 80. Este fato prejudicou a industria Soviética (não militar), que continuaria dependente da tecnologia ocidental e nunca alcançaria o mercado de consumo internacional (Link 45).

CIA

Por outro lado, a estratégia da China para fazer uso efetivo de tecnologia estrangeira é usá-la para apoiar a indústria comercial doméstica. Quando uma empresa chinesa estatal procurou recentemente roubar a tecnologia de fabricação de semicondutores de chips de memória dos EUA, o principal motivo foi aumentar a competitividade tecnológica da indústria doméstica de semicondutores da China nos mercados globais (Link 46). O governo da China observou que possuir indústrias comercialmente competitivas geralmente traz mais benefícios a longo prazo para o setor de segurança nacional da China do que a utilização militar a curto prazo de qualquer tecnologia roubada. Por exemplo, a abordagem da China para a IA, conforme descrita em seu documento de estratégia nacional da AIDP, é:

“Siga as regras do mercado. . . acelere a comercialização da tecnologia e dos resultados da IA ​​e crie uma vantagem competitiva. Compreender bem a divisão do trabalho entre governo e mercado.” (Link 47).

A União Soviética tinha uma grande comunidade de cientistas e tecnólogos brilhantes, mas essa comunidade gastou uma quantidade desproporcional de seu potencial criativo e intelectual na compensação das deficiências do sistema soviético, aplicando suas inovações em sistemas militares, restritos a inteligência estratégica de governo. Além de incentivos institucionais perversos, divorciados da realidade econômica, a economia soviética foi deliberadamente auto-isolada do comércio global.

Comparadas com a economia comunista sem mercado da União Soviética, as políticas da China que promovem o empreendedorismo orientado para o mercado os tornaram consumidores muito superiores da tecnologia internacional e especialmente dos EUA, reunidos por meios legais ou ilegais. Apesar dos sucessos sensacionais na Corrida Espacial e de algumas das principais tecnologias militares, em geral, a União Soviética ficava cada vez mais atrasada a cada ano que a Guerra Fria se arrastava. A China, por outro lado, passou de uma estagnação intelectual para despontar em uma longa lista de campos científicos em apenas duas décadas.

Objetivo de curto prazo da China: manter o acesso à tecnologia estrangeira, mas reduzir a dependência
10. Os governantes da China buscam preservar o acesso à tecnologia estrangeira no curto prazo, mas acreditam que devem promover a independência doméstica a longo prazo. Esse tem sido o objetivo da China há muito tempo, mas ganhou nova urgência.

Em novembro de 2018, o Dr. Tan Tieniu, vice-secretário-geral da Academia Chinesa de Ciências, fez um amplo discurso diante de muitas das lideranças da China no Comitê Permanente do 13º Congresso Nacional do Povo. No discurso, ele argumentou que o status de atraso da China em padrões técnicos, estruturas de software e semicondutores deixava a China vulnerável e com extrema necessidade de alternativas domésticas. Devido à franqueza e perspicácia dos comentários do Dr. Tan, vale a pena citar detalhadamente:

“[A China deveria] construir um ecossistema de inovação independente e controlável. Empresas americanas como Google, IBM, Microsoft e Facebook construíram ativamente ecossistemas de inovação, conquistaram o terreno inovador e, já no setor internacional de IA, estão em vantagem em chips, servidores, sistemas operacionais, algoritmos de código aberto, serviços em nuvem e direção autônoma, entre outros. A comunidade de código-fonte aberto de IA da China e o ecossistema de inovação tecnológica estão comparativamente atrasados, nosso empenho na construção da plataforma tecnológica precisa ser reforçada e a influência internacional [da China] deve continuar a ser aprimorada.”

“A proibição americana da ZTE demonstra claramente a importância de tecnologias independentes, controláveis, essenciais e fundamentais. Para evitar a repetição desse desastre, a China deve aprender sua lição sobre a importação de componentes eletrônicos principais, chips de uso geral de ponta e software básico.” (Link 48)

Embora dito em um tom mais urgente, os comentários de Tan estão alinhados com a política de tecnologia pré existente da China. O Relatório de Inteligência Artificial da Universidade de Tsinghua conduziu uma análise quantitativa abrangente dos documentos de política tecnológica chinesa e constatou que o Made in China 2025 (Link 49) é a política mais importante e que sustenta o desenvolvimento de políticas de inteligência artificial pelos governos regionais chineses. Os governos regionais têm a responsabilidade primária de implementar os objetivos estratégicos estabelecidos pelo governo central. Made in China 2025, descreve de maneira clara as políticas para vários setores, para reduzir a dependência de tecnologia estrangeira, desenvolvendo-a de forma autônoma ou adquirindo-a de fontes estrangeiras e, posteriormente, por consequência aumentar a participação no mercado global.

Tan Tieniu também argumentou que a China pode alavancar sua força existente em aplicativos de IA para melhorar sua posição em outras partes da cadeia de valor da IA, como os padrões internacionais. “Como a China está na vanguarda global dos aplicativos de tecnologia de IA, deve aproveitar o direito de falar na formulação de padrões internacionais de IA”, disse ele.

11. A busca da China pela redução da dependência externa está dando frutos, como mostra o aumento da participação de captura de valor pelos fornecedores chineses na cadeia de suprimentos do mercado global de smartphones e o sucesso da China no projeto avançado de semicondutores.

Um estudo de 2011 (Link 50) dos quais países capturam qual parcela da receita de cada venda do iPhone descobriu que as fábricas que montam o iPhone na China capturavam menos de 2% do valor de cada iPhone vendido. (Link 51) Por outro lado, quase metade do valor de cada dispositivo foi capturado por empresas chinesas no caso do principal smartphone P9 da Huawei em 2017, um concorrente direto do iPhone (Link 52). Para a Huawei, esses ganhos de captura de valor não se limitam a tarefas de baixa qualificação. A subsidiária HiSilicon da Huawei projetou o principal processador (semicondutor) do P9, incluindo seu componente acelerador de aprendizado profundo de IA internamente. De fato, o estudo subestima a captura de valor da China em smartphones porque subestima os ganhos de software da China. Embora as empresas chinesas não sejam grandes concorrentes no mercado de sistemas operacionais para smartphones, o aplicativo WeChat da Tencent cumpre muitas das funções de um sistema operacional e é onipresente entre os proprietários chineses de smartphones.

Distribution of value for iPhone, 2010 

Existem três segmentos principais da cadeia de valor de semicondutores: projeto (design), fabricação e montagem. Historicamente, a China tem sido apenas um participante importante na montagem, o que é uma habilidade relativamente baixa. Recentemente, as empresas chinesas demonstraram um projeto (design) de semicondutor competitivo e de alta qualidade, exemplificado pelo Kirin 980 da Huawei. O Kirin 980 é um dos únicos dois processadores de smartphones do mundo a usar a tecnologia de processo de 7 nanômetros (nm), o outro é o projetado pela Apple, o A12 Biônico. Tanto a Apple quanto a Huawei confiam no TSMC em Taiwan para fabricação terceirizada de 7nm. Até os fabricantes chineses mais avançados de semicondutores estão recém introduzindo a tecnologia de 14nm em 2019, alcançada por empresas internacionais como Intel e Samsung em 2014. A SMIC, a mais avançada fabricante de semicondutores da China, espera atingir a produção de 7nm no início dos anos 2020, (Link 53) o que ainda estaria significativamente atrás dos concorrentes globais mais avançados, embora possivelmente por uma margem menor.

A importância dos semicondutores para a futura competição de IA
12. Além das aplicações militares de IA, o foco futuro da competição estratégica nacional de IA provavelmente será o setor de semicondutores, porque a tecnologia de ponta da IA ​​depende cada vez mais de chips de computador personalizados. (Link 54)

Historicamente, as empresas de IA conseguiram criar vantagens competitivas com base na posse de mais e mais dados de qualidade para usar para fins de treinamento. A qualidade dos dados, a diversidade e, principalmente, a quantidade, continuam sendo as principais fontes de vantagem competitiva para muitos aplicativos de IA, mas há duas ressalvas. Primeiro, muitos dos dados de treinamento para aprendizado de máquina são específicos de aplicativos. Isso significa, por exemplo, que ter uma grande quantidade de dados de prontuários médicos não ajuda em nada se o objetivo é desenvolver um carro sem motorista. Segundo, algumas aplicações de IA podem usar os chamados “dados sintéticos”, (Link 55) criados por simulação computacional ou auto-reprodução, para reduzir ou eliminar a queda de desempenho de grandes quantidades de dados do mundo real.

O treinamento de algoritmos de aprendizado de máquina em grandes conjuntos de dados é exige muito processamento computacional. A execução de simulações para gerar dados sintéticos é, para muitos aplicativos, ainda mais intensiva em termos computacionais. Para o grande e crescente conjunto de aplicativos de IA em que são necessários grandes conjuntos de dados ou em que dados sintéticos são viáveis, o desempenho da IA ​​geralmente é limitado pelo poder de processamento computacional. Isso é especialmente verdadeiro para a pesquisa de ponta em IA. (Link 56) Como resultado, as principais empresas de tecnologia e instituições de pesquisa em IA estão investindo grandes quantias em dinheiro na aquisição de sistemas de computação de alto desempenho.

As empresas chinesas e os laboratórios governamentais são fortes em computação (processamento de dados) de alto desempenho e, especificamente, em computação de IA de alto desempenho eficiente. O SenseTime da China, por exemplo, revelou em dezembro de 2018 que seu poder de processamento computacional agregado é de mais de 160 petaflops, mais do que o supercomputador mais bem classificado do mundo no Laboratório Nacional de Oak Ridge. A infraestrutura de computação do SenseTime inclui mais de 54.000.000 de núcleos de unidade de processamento gráfico (GPU) em 15.000 GPUs em 12 clusters de GPU. Esses números indicam que o SenseTime gastou centenas de milhões de dólares em infraestrutura de computação. A rede de computadores do SenseTime abrange vários países, mas não está conectada à Internet, usando a chamada configuração ” under the top”. Na conferência do JP Morgan Asia TMT de 14 de novembro de 2018, onde o SenseTime estava apresentando a potenciais investidores, o co-fundador Bing Xu disse que a disposição do SenseTime de investir em infraestrutura de supercomputação era fundamental para sua capacidade geral de gerar IP e vantagens competitivas sustentáveis. Ele disse ainda que “30 a 40%” da equipe de pesquisa do SenseTime é dedicada a melhorar a estrutura interna de aprendizado de máquina do SenseTime, Parrots, e melhorando a infraestrutura de computação do SenseTime. Vários pesquisadores chineses afirmam que consideram a experiência da China em projetar e integrar sistemas de computação de alto desempenho uma das vantagens mais fortes da China em IA.

A maioria das GPUs do mundo é projetada pela NVIDIA nos Estados Unidos e fabricada pela TSMC em Taiwan. No momento, a China não possui um grande fabricante ou designer de GPUs avançada. No entanto, a posição atual da GPU como o chip acelerador de computação de IA mais usado está sob crescente concorrência de chips projetados para executar aplicativos de IA (Link 57).

Muitas empresas de tecnologia dos EUA tradicionalmente focadas em software, como Google e Amazon, criaram e ou adquiriram divisões de projetos (design) de semicondutores especificamente para trabalhar em chips aceleradores de IA. Esses chips podem oferecer desempenho dramaticamente superior às GPUs para aplicativos de IA, mesmo quando fabricados usando processos e equipamentos mais antigos. A primeira geração do chip de inteligência artificial primário do Google, chamada Unidade de Processamento Tensorial (TPU), por exemplo, é fabricada com a tecnologia de processo de 28 nanômetros, já amplamente disponível na China. O Google afirmou em 2017 que sua TPU de primeira geração era 15 a 30 vezes mais rápida e 30 a 80 vezes mais eficiente em termos de energia para cargas de trabalho de IA do que as GPUs contemporâneas. (Link 58)

As empresas chinesas Baidu (em parceria com a Intel), (Link 59) Alibaba (através de uma nova subsidiária, Pingtouge), (Link 60) e Huawei (através de sua subsidiária HiSilicon) estabeleceram divisões de projetos (design) de semicondutores focadas no desenvolvimento de chips aceleradores de IA. As startups chinesas de chips de IA Horizon Robotics e Cambricon levantaram centenas de milhões de dólares em financiamento de capital de risco e também obtiveram avaliações (valuation) de bilhões de dólares. (Link 61)

Perspectivas da China para IA e semicondutores
13. As perspectivas da China no mercado de semicondutores de chips de IA são fortes, provavelmente mais fortes do que na indústria geral de semicondutores.

O objetivo da China, conforme descrito em Made in China 2025 (Link 62), é aumentar a produção doméstica de semicondutores como uma parcela do consumo doméstico para 80% até 2030 e reduzir todas as dependências externas, incluindo a dependência de empresas de Taiwan como a TSMC. De acordo com a Associação da Indústria de Semicondutores da China (CSIA), os produtores chineses estão avançando para aumentar sua participação no consumo doméstico de 29% em 2014 (no ano anterior ao anúncio do Made in China 2025) para 49% em 2019 (Link 63). No entanto, a maioria desses ganhos ocorreu em segmentos de produtos que não exigem os semicondutores mais avançados, que continuam sendo uma grande fatia do mercado (Link 64). Nas divulgações financeiras do quarto trimestre de 2018, a TSMC (que detém aproximadamente metade da participação global do mercado de fundição de semicondutores) (Link 65) revelou que quase 17% de sua receita provinha de processos de 28nm (tecnologia de 2010) e 37% de processos ainda mais antigos (Link 66). Os fabricantes chineses planejam priorizar os segmentos de mercado onde os processos mais antigos podem ser competitivos.

Os chips de IA oferecem aos fabricantes chineses uma abertura atraente para sua tecnologia de processo mais antiga. Como mencionado acima, os chips de IA podem oferecer desempenho e custo potencialmente superiores aos das GPUs de ponta, mesmo usando processos de fabricação menos avançados (Link 67). Portanto, o aumento dos chips de IA oferece à China a chance de combinar seus setores altamente avançados de design de semicondutores e software de IA para expandir a participação de mercado e a competitividade no setor mais amplo de semicondutores. Embora os principais telefones celulares provavelmente sempre exijam a geração mais avançada de processos de fabricação de semicondutores, muitos aplicativos podem ser desenvolvidos com tecnologia mais antiga. Com chips de IA de baixo custo, esse pode ser um conjunto de aplicativos excepcionalmente atraente, diversificado e em rápido crescimento. (Link 68)

A compreensão da importância dos chips de IA parece ser cada vez mais difundida na China. O recente “ White Paper on AI Chip Technologies” da Universidade de Tsinghua demonstra uma profunda compreensão de toda a tecnologia relevante e dinâmica de mercado. Esse relatório enfatiza fortemente a importância estratégica dos chips de IA:

“Seja a realização de algoritmos, a aquisição e um banco de dados massivo, ou a capacidade de computação, o segredo por trás do rápido desenvolvimento da indústria de IA está na única base física, ou seja, nos chips. Portanto, não é exagero dizer “sem chip, sem IA”, dado o papel insubstituível do chip de AI como a pedra angular do desenvolvimento da IA ​​e seu significado estratégico.” (Link 69)

Ao mesmo tempo, a China espera usar o sucesso nos chips de IA para criar uma vantagem competitiva duradoura no setor geral de IA, sustentada por capacidade superior de computação, conjuntos de dados maiores e um ambiente regulatório mais favorável. Esta é uma área de alta prioridade para as empresas de IA e o governo da China. Yu Kai, CEO da startup chinesa de chips AI Horizon Robotics, é um membro influente do Comitê Consultivo Estratégico da AI do Ministério da Ciência e Tecnologia (MOST) da China . (Link 70)

14. A China está atrasada em IA e em semicondutores, as tendências atuais sugerem que a diferença diminuirá. Esta é uma das principais prioridades do governo, recebendo enorme atenção e investimento.

Tanto na IA quanto nos semicondutores, a China reduziu drasticamente a lacuna entre suas empresas domésticas e as líderes internacionais. Isso aconteceu durante os governos de Barack Obama, que foi ausente de algum tipo de ação ou mudança importante na política dos EUA, para aumentar a competitividade neste setor. As políticas estratégicas da China provavelmente serão suficientes para garantir que, nos próximos 5 anos, a China garanta uma vantagem competitiva em muitos mercados de aplicativos de IA e pelo menos reduza a diferença entre empresas chinesas e não chinesas em muitos segmentos de mercado de semicondutores.

Em 2014, o governo da China estabeleceu um fundo nacional de investimento na indústria de circuitos integrados (Link 71) com objetivo de reduzir a dependência da China de semicondutores estrangeiros. O primeiro fundo investiu 138,7 bilhões de RMB (US $ 20,5 bilhões) e logo após foi seguido em 2018 por um segundo fundo do governo que supostamente investirá 300 bilhões de RMB (US $ 44,5 bilhões) nos próximos anos.

Uma pequena reação teve início no governo Obama, em abril de 2015, de restringir as exportações de semicondutores para centros de supercomputação chineses. Reação mais forte e ampliada foi feita no governo Trump, ampliando as restrições. Temos como exemplo a restrição de exportação de semicondutores mencionadas anteriormente pelo governo Trump na ZTE. Estes fatos reforçaram a conclusão da liderança da China de que o aumento da “autoconfiança” é mais importante do que nunca. O Dr. Tan Tieniu afirmou isso explicitamente em seu discurso no Congresso do Partido em novembro diante da liderança da China, e o co-fundador do Alibaba, Jack Ma, anunciou publicamente conclusões semelhantes em abril de 2018: “o mercado de chips é controlado pelos americanos”, disse Ma. “E de repente se eles param de vender – o que isso significa? você entende? E é por isso que a China, Japão e qualquer país precisam de tecnologias essenciais em seu território.” (Link 72)

Conforme demonstrado pela Huawei, o nível superior do segmento de projetos de semicondutores da China já é competitivo no “estado da arte global”. As empresas de design chinesas se beneficiam do fácil acesso às principais empresas de fundição de semicondutores de Taiwan que fabricam semicondutores, mas não as projetam.

As principais barreiras para o progresso na fabricação de semicondutores na China são: o acesso aos equipamentos de fabricação de semicondutores mais avançados e o acesso a cientistas e trabalhadores qualificados que tenham o conhecimento de como implementar efetivamente os processos de fabricação mais avançados. A China está avançando significativamente nos dois pontos, mas a diferença no número de trabalhadores qualificados é muito grande, dada a escala das ambições de crescimento da indústria de semicondutores na China. (Link 73)

Embora não possua nenhuma das empresas de manufatura de equipamentos mais avançadas do mundo, a China possui forte poder de negociação com empresas estrangeiras devido ao tamanho e crescimento de seu mercado doméstico. As vendas de equipamentos de fabricação de semicondutores na China representaram 11,8% (US $ 6,5 bilhões) do mercado global em 2017, mas já se estima crescer em 2019 para 25,6% (US $ 17,3 bilhões). (Link 74) Recentemente, os fabricantes de equipamentos de semicondutores na Europa assinaram acordos com empresas chinesas para exportar equipamentos de alta tecnologia de fabricação de semicondutores 7nm. (Link 75) A China também recrutou com sucesso muitos trabalhadores e executivos das principais empresas de semicondutores de Taiwan, (Link 76) incluindo o novo CEO da SMIC, que tem um histórico documentado de roubo de propriedade intelectual. (Link 77)

Para que tenhamos uma ideia da importância da propriedade intelectual e como as grandes empresas globais lidam com este assunto, os laboratórios de P&D de semicondutores da empresa coreana Samsung, todo o papel de impressora do prédio possui um fio metálico para acionar os detectores de metal da porta de saída, uma ilustração potente da visão da Samsung de que o roubo de propriedade intelectual é uma ameaça significativa e constante.

15. Fatores macroeconômicos adversos e uma potencial bolha financeira podem retardar o crescimento do setor de IA na China.

O ecossistema empresarial de capital de risco e tecnologia da China é um dos principais pontos fortes do país. As startups chinesas de IA aumentaram sua participação no investimento global em IA para 48% em 2017, enquanto as startups americanas atraíram 38%. O Brasil não possui um índice nominal. No entanto, o investimento da China está concentrado em muito menos empresas, a maioria das quais possui avaliações extraordinariamente altas em relação à sua lucratividade atual. Vários investidores chineses importantes levantaram a hipótese de que isso representa uma bolha financeira no setor de tecnologia da China, onde o crescimento é impulsionado principalmente pelo fácil acesso do setor ao capital de investimento, em vez de perspectivas de crescimento lucrativo das receitas. (Link 78) Se for verdade, essa bolha não colocaria em dúvida a existência do forte setor de IA da China, mas sim sua sustentabilidade financeira. Além disso, no segundo semestre de 2018, o setor de tecnologia da China percebeu que estavam acontecendo demissões em grandes números e o reflexo disso estava nos preços dos imóveis para escritórios, que caíram nos principais distritos de tecnologia de Pequim (Link 79). O clima macroeconômico mais amplo na China também piorou em 2018, em parte como resultado da disputa comercial da China com os Estados Unidos. É difícil determinar em que medida isso reflete uma desaceleração no setor de tecnologia, uma mudança no ambiente financeiro ou apenas a participação do setor de tecnologia nos ventos macroeconômicos. No entanto, uma grande desaceleração do setor de tecnologia ou recessão econômica torna difícil para o governo e as empresas da China arcarem com os investimentos em P&D necessários para melhorar a sua competitividade.

A importância do sucesso comercial da IA ​​para o PODER Chinês
16. O sucesso da China nos mercados comerciais de IA e de semicondutores tem relevância direta para o poder geopolítico da China, bem como suas capacidades militares e de espionagem.

O sucesso do mercado comercial da China tem relevância direta para a segurança nacional da China, tanto porque reduz a capacidade do governo dos Estados Unidos de exercer pressão diplomática e econômica sobre a China quanto porque aumenta as capacidades tecnológicas disponíveis para a comunidade militar e de inteligência da China. Quanto a este último, essencialmente todas as grandes empresas de tecnologia da China cooperam extensivamente com os serviços de segurança militar e estatal da China e são legalmente obrigadas a fazê-lo. O artigo 7 da Lei Nacional de Inteligência da China concede ao governo autoridade legal para obrigar essa assistência, embora o governo também tenha poderosas ferramentas não coercitivas para incentivar a cooperação.

“Qualquer organização e cidadão deve, de acordo com a lei, apoiar, prestar assistência e cooperar no trabalho de inteligência nacional, e guardar o sigilo de qualquer trabalho de inteligência nacional de que ele conheça. O estado deve proteger indivíduos e organizações que apoiam, cooperam e colaboram no trabalho nacional de inteligência.”

A “integração militar-civil” é uma das pedras angulares da estratégia nacional de inteligência artificial da China. Vários executivos chineses relatam que estão sentindo significativamente mais supervisão e pressão do governo central da China, um resultado consistente com as recentes reportagens da mídia. (Link 80)

Em 2018, o governo da China deu um passo considerável ao anunciar que Baidu, Alibaba, Tencent, iFlytek e SenseTime eram oficialmente os “Campeões da IA” do país. Os executivos do SenseTime disseram que este anuncio dava às empresas posições privilegiadas para a definição de padrões técnicos nacionais e também visava dar às empresas a confiança de que não seriam ameaçadas pela concorrência de empresas estatais.

Em dezembro, o co-fundador do SenseTime, Bing Xu, disse: “Temos muita sorte de ser uma empresa privada que trabalha com uma tecnologia que será indispensável nas próximas duas décadas. Historicamente, os governos dominavam tecnologias nucleares, de foguetes e não confiavam em empresas privadas destes setores. ”

Ao comparar explicitamente a IA à tecnologia nuclear e de foguetes, Bing Xu parece estar referenciando ao papel fundamental da IA ​​no futuro da segurança nacional. A SenseTime e os outros campeões de IA podem dominar essas tecnologias ampliando e também ampliar a cooperação dos campeões com a comunidade de segurança nacional da China. Mesmo além da cooperação direta, o sucesso da China nos mercados comerciais de IA e de semicondutores traz financiamento, talento e economias de escala que reduzem a vulnerabilidade da China de perder o acesso aos mercados internacionais e oferecem tecnologia útil para o desenvolvimento de recursos de armamento e espionagem.

Joseph Paul Watson fala sobre a abominável rede de créditos chinesa que busca o controle absoluto sobre todas as pessoas e mentes. Cidadãos que idolatrem o regime serão recompensados, os dissidentes não poderão “dar um passo”. Assista ao vídeo abaixo:

Porque a China e o seu governo comunista ditatorial são obcecados com identificação?

Assista parte de um documentário produzido pela BBC Norete Americana sobre este assunto.

O Brasil deve ver isso como uma Oportunidade ou Ameaça?

O Brasil não deve descartar nenhuma das possibilidades.

OPORTUNIDADE

O Brasil esta diante de uma grande oportunidade. Poderá, ao lado dos EUA, protagonizar a inovação tecnológica na América Latina, criando um elo de cooperação jamais visto entre os dois países. A reforma da previdência, a reforma tributária e a desburocratização do Estado são algumas das principais medidas que o Brasil precisa avançar rapidamente para ocupar este espaço.

As questões ideológicas e comerciais afastam de forma consistente os EUA da China. As sanções comerciais impostas pelos Norte Americanos aos Chineses já demonstra claramente o descontentamento e desconfiança que os americanos possuem em relação aos chineses e a sua busca observada pelo avanço militar através da IA. As inúmeras tentativas de espionagem industrial e principalmente intelectual também agravam esta relação.

Com as reformas concluídas, ou até mesmo em andamento avançado, com o alinhamento ideológico e militar, o Brasil passa a ser o país mais adequado para tornar-se parceiro estratégico, comercial e industrial dos EUA.

Além da proximidade geográfica, diferente dos países asiáticos, o Brasil é um grande fornecedor de matéria prima. Não possuímos industrias de tecnologia de ponta, e neste requisito é que podemos evoluir muito com esta parceria bilateral. O Brasil exporta matéria prima para fabricação de equipamentos eletrônicos na China e depois abre o seu mercado consumidor para os produtos eletrônicos fabricados na China com matéria prima brasileira. Esse vai e vem acaba com a fabricação em território brasileiro, barateando significativamente a linha de produção nacional. Um exemplo clássico são as pedras preciosas brasileiras, que saem do nosso território em forma bruta e retornam lapidadas por até 100 vezes o seu valor inicial.

Trump e Bolsonaro sabem que EUA e Brasil podem formar uma parceria perfeita. Juntos possuem matéria prima abundante, minerais, energia, água, alimento, petróleo, tecnologia, quantidade e qualidade intelectual e ainda grandes mercados consumidores.

AMEAÇA

Os investimentos do governo chinês e das empresas chinesas no exterior são um dos principais pilares dessa estratégia de IA. Na América Latina, o país já concedeu mais créditos que o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Em 2017, investiu o equivalente a 390 bilhões de reais em 6.236 empresas de 174 países, segundo seu Ministério do Comércio. Como parte do plano de se tornar um país líder em tecnologia e fazer com que esse setor seja uma das principais fontes de seu PIB, a China comprou empresas fundamentais em áreas estratégicas, como a líder alemã em robótica Kuka e a fabricante de chips britânica Imagination.

Os países que ainda estão longe desta competição, são justamente os mais cobiçados pela China para expandir suas tecnologias em campo, criando bases gigantescas de dados e aperfeiçoando seus sistemas e processamentos computacionais. Vimos acima os motivos para tamanha expansão. Claro que não podemos fechar as portas para investimentos da China no Brasil, mas devemos estudar detalhadamente o assunto antes de tomadas de decisão. O EUA poderá ser um grande aliado nesta análise.

Muitos aeroportos e estádios de futebol, assim como diversas áreas de grande circulação de pessoas já estão com sistemas de IA e monitoramento fornecido pelos chineses, muito ainda em fase de testes (PoC = sigla do inglês, Proof of Concept). O brasileiro é adepto da tecnologia, o que o torna um campo fértil para o aperfeiçoamento das suas tecnologias. Um dos ponto relevantes para o aperfeiçoamento da tecnologia de IA é proporcionar aos sistemas de aprendizagem de máquina acesso as imagens e análise de vídeo uma população heterogênea, uma população miscigenada, com características de diversos povos em uma única nação. Certamente os sistemas de reconhecimento facial aprenderão muito em território brasileiro. Talvez aí entenderemos o porque de tamanha oferta agressiva da China na implantação destes sistema no Brasil.

Além disso, não podemos deixar de citar as tecnologias chinesas de geração de energia, as eólicas por exemplo. A mudança da matriz energética mundial é uma corrida brutal. Pois quem ocupar a liderança mundial de patentes destas tecnologias será o novo “Emirados Árabes” da energia limpa, ditando o caminho das nações e tornando-se indispensável para o mundo. Este tema em específico deverá ser discutido em outro momento, outro artigo, pois envolve diversas forças políticas mundiais que lutam contra o suposto “aquecimento global”, “desmatamento”, “internacionalização da Amazônia” e tantas outras ações.

Sugiro a leitura do artigo abaixo que trata de forma paralela este tema:

Conclusão

É claro que o governo da China vê a IA como uma alta prioridade estratégica e dedica os recursos necessários para cultivar a experiência em IA e o pensamento estratégico de segurança nacional.

Eu acredito que seja muito importante que o governo brasileiro priorize, de alguma forma, o conhecimento e compreensão do desenvolvimento da IA ​​na China e EUA.

Ainda assim, nenhuma quantidade de informações sobre a estratégia de IA da China será suficiente por si só para enfrentar o desafio competitivo colocado pela China. Se os Estados Unidos quiserem liderar o mundo em IA, será necessário financiamento, foco e disposição, além de um parceiro estratégico alinhado diplomaticamente e com acordos de cooperação assinados. A oportunidade bate na porta do Brasil.

Espero que este artigo contribua para esse objetivo.

Luiz Gustavo Salatino

1
Olá Salatino. Estou entrando em contato através do WhatsApp disponível em seu site luizsalatino.com.br. Desejo receber em primeira mão todas as notícias e informações relacionadas no seu site. Segue abaixo meu nome e minha cidade.
Powered by